Ganhei um filtro
dos sonhos. O nome é tão significativo, mas nunca parei pra pensar que se ele fosse
mesmo um filtro de sonhos, eu provavelmente seria a consumidora número um.
Não quero
filtrar os pesadelos, se é isso o que parece. Gostaria de filtrar os sonhos
bons. Aqueles que trazem boas lembranças, que nos mostram felizes e completos,
repletos de sentimentos que nos fazem sentir vivos mesmo quando aquilo nem é
real.
O filtro dos
sonhos é usado em uma tribo indígena norte americana que acredita que decifrar
sonhos é a tarefa mais importante do homem na passagem pela vida. Essa tribo
acredita que quando caímos no sono, os sonhos – bons e ruins – pairam pelo ar e
podem conter uma importante mensagem. Cabe ao filtro deixar essas mensagens o
mais claras possível.
Decifrar os
sonhos pode ser uma tarefa confusa e difícil, mas e quando eles são claros até
demais? Há uma mensagem neles?
As memórias agem
da mesma forma. As coisas são realmente como lembramos? Ou são só da forma como
nós queremos lembrar? Há alguma mensagem nelas?
Queria poder
filtrá-las ou até mesmo apagá-las. Sei que dependo delas para ser como eu sou,
mas eu queria mesmo que por pouco tempo, me livrar delas e me sentir viva
novamente.
Queria me sentir
viva como nos meus sonhos. Com ou sem o filtro, sinto como se vivesse à noite,
e dormisse durante o dia. A realidade pode ser bem decepcionante, ainda mais
quando sentimos falta de algo que nem remotamente tivemos. Parece uma memória
ruim, martelando na cabeça, como se quisesse dizer algo. Esse alguém aparecendo
em todos eles, de formas diferentes, com vidas diferentes. Sempre a mesma
pessoa, rasgando o filtro e resgatando suas memórias assim que você acorda.
A cada dia,
sinto mais medo de sonhar. Sinto medo de que não há mensagem alguma, e você é
apenas um fantasma em forma de passado para me assombrar.