segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Congelado

Eu já nem me lembro mais como vim parar caído no meio dessa neve toda, só sinto minha força vital se esvaindo de meu corpo. Tudo esta ficando escuro e embaçado. 

Sinto um pouco de medo: seria medo da morte? Ou medo do desconhecido caminho que está por vir?

Mais uma lufada de vento bate em meu rosto. Isso dói.

Já não possuo mais forças para mexer minhas extremidades, meus braços e pernas parecem já estar mortos. Minha respiração se torna cada vez mais lenta, fraca e dolorida. 

Como eu vim parar aqui, nesse momento, prestes a morrer?

Tento não fechar os olhos, pois sei que ao fazê-lo poderá ser a assinatura de minha sentença de morte. Mas está difícil me manter consciente. Meu pensamento se torna cada vez mais vago e assim como a minha vista, começa a ficar turvo e sem sentido.

Então com um ultimo esforço, tento recordar o que houve para que eu chegasse a esse momento final. Minha cabeça dói enquanto me esforço, já sem esperanças. 

Fecho meus olhos e com uma ajuda do universo, finalmente consigo me lembrar de algumas coisas e cenas aleatórias e aparentemente sem nexo aparecem em minha mente.

Havia alguém ali, uma pessoa, uma mulher talvez?

Mais uma lufada de vento atinge meu rosto. O uivo do vento aumentando cada vez mais.

A mulher em minhas memórias dança ao som de uma vitrola, porém como um filme antigo não há som, apenas imagem. 

Tudo escurece.

A cena muda e a vejo através de uma janela, apenas parada com seu chapéu branco olhando a natureza em uma varanda com vista para uma montanha.

Tudo escurece.

A cena muda novamente e agora lá está ela, saindo pela porta com uma mala grande em suas mãos. Aonde você vai, jovem e bonita garota dos cabelos castanhos?

Tudo escurece.

A cena muda e novamente a vejo, agora andando de mãos dadas com outro homem.

Tudo escurece.

Com um ultimo esforço eu me lembro como vim parar aqui: vim atrás dela e fui pego por uma tempestade de neve.

Ouço um uivo distante, diferente do som do vento, e com um ultimo esforço abro meus olhos aos poucos. Ao longe vejo a silhueta de algo se aproximando: seria um lobo?

E enquanto aquele ser desconhecido se aproxima, fecho meus olhos mais uma vez.

E finalmente tudo se cala.

Tudo escurece.

Stray

Como um lobo selvagem, sinto a vontade de correr sem parar. 

Como um lobo selvagem, sinto o pavor de ficar estagnado.

Como um lobo selvagem, sinto a necessidade de seguir em frente sem olhar para trás.

Como um lobo selvagem, sinto meu interior clamando por liberdade sem nada para me prender.

Como um lobo selvagem, sinto a necessidade de proteger aqueles ao meu redor.

Como um lobo selvagem, sinto a perseverança de alcançar meus objetivos.

Como um lobo selvagem, sinto a liderança me consumindo internamente.

Como um lobo selvagem, sinto a vontade de descobrir novos caminhos, desbravando novos horizontes, sem lugar para voltar, apenas seguindo a lua que me guia.

Como um lobo, me sinto selvagem.

Como um lobo, sinto a necessidade de clamar pela lua em toda sua grandeza.

E como um lobo, venho te questionar: você quer ser minha lua?

After life

Eu paro para pensar como será o pós vida: Será que é como a religião católica prega, que aqueles que se arrependerem irão para o céu e os que não se arrependerem, serão lançados ao inferno? Será que é apenas o pensamento simples e descrente dos cientistas, onde se acredita que após morrermos simplesmente acabou? Será que tudo não é um ilusão? Será que já não estamos mortos?

Normalmente eu penso nisso ao me deitar para dormir. Milhões de pensamentos tomam minha cabeça,  milhões de questionamentos, duvidas, angustias e esperanças: tudo misturado em uma escuridão vazia e silenciosa. Será que irei reencontrar aqueles que o destino levou de mim ou será que, assim como minha mente fica ao pensar nisso, tudo ficará escuro e silencioso.

Fico com uma intensa esperança de que eu possa ver, mais uma vez, aquele sorriso leve que cuidou tanto de mim. Uma esperança de escutar os latidos felizes ao me ver. Uma gigantesca esperança de sentir aquela lambida na ponta do nariz após ouvir o miado que aquece meu coração.

Mas ao mesmo tempo, fico com uma angustia ainda maior de não saber se poderei ver, sentir ou ouvir qualquer desses meus sonhos que me consomem diariamente. 

Como posso continuar sem saber para onde estou indo? Como posso continuar sem saber o que me aguarda quando tudo isso acabar? Como posso continuar sem vocês ao meu lado?

Sinto seus olhares atentos vendo tudo que faço, cuidando de mim, me repreendendo quando necessário e me acalentando em momentos difíceis. Porém a falta que vocês estão me fazendo é incalculável, imensurável e insuportável. 

São nesses momentos em que eu penso em desistir e finalmente descobrir o que há no pós vida.